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Koxa pega maior onda da história e Chumbo quebra

Rodrigo Koxa surfa a maior onda de todos os tempos em Portugal e fatura prêmio de big rider da temporada. Lucas Chumbo leva com melhor performance.

por Fábio Maradei, 30/04/2018

Maior onda da história.  Sonho realizado, símbolo de persistência, da preparação, da resiliência, da ousadia, da coragem, do amor pelo esporte e por desafios.

O surf do Brasil está novamente no topo do Mundo e em “grande” - no sentido pleno da palavra – estilo. O guarujaense Rodrigo Koxa não só faturou o badalado prêmio especial Quiksilver XXL Biggest Wave, no Big Wave Awards, da World Surf League (WSL), como teve a sua onda oficializada como a maior já surfada na história.

A onda surfada por Koxa no dia 8 de novembro do ano passado, em Nazaré, Portugal, foi declarada como novo recorde mundial, com incríveis 80 pés (cerca de 24,4 metros), superando a marca anterior, que era de Garrett McNamara, um ídolo e mentor do surfista brasileiro. Para o atleta que sempre esbanja simpatia e felicidade, o momento da premiação no Red Bull Headquarters, em Santa Mônica, na Califórnia (EUA), foi mais do que especial.

“Yeah! Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Momento mágico, que aguardei a vida inteira, porque sempre amei onda grande, desde criança. Eu via alguém surfando onda grande e tremia, queria saber sempre mais e agora vivenciar isso, não tem preço. Estou realizadíssimo. Já estava realizado quando peguei a onda e agora é o sonho concretizado”, vibrou o surfista direto da Califórnia.

Para chegar até a entrega do prêmio, o surfista de 38 anos, que mora na Praia da Enseada, em Guarujá, superou muitos desafios, inclusive um transtorno de stress pós-traumático, similar quando um soldado volta da guerra, como ele mesmo define. Enfrentou falta de patrocínios, vendendo camisas da marca de roupas criadas por ele, a Koxa Bomb para poder viajar, e teve de batalhar nas montanhas de água com uma estrutura mais enxuta, para alcançar uma onda que já entrou para a história do surf mundial.

Estava confiante, mas passou por momentos de stress, de ansiedade, aguardando o resultado. “Eu estava com uma confiança muito grande dessa vez. Fiz um trabalho de alinhamento com Deus, entendi que já tinha feito a minha parte e fiquei leve”, revelou. “Eu já tinha vivenciado duas finais, uma em 2011, com a maior onda, e outra em 2012 com a pior vaca. As duas fiquei com o sentimento do quase vencer. E agora, quando venci, passou aquela coisa de missão cumprida. Deus proporcionou as outras vezes para me preparar para esse momento. Passou um filme na minha cabeça. Foi realização total”, falou.

“Quando fui anunciado foi sensacional. Todos me abraçando, me levantando, falando: Koxa você bateu o recorde. Veio o Greg Long, Ian Walsh, Peter Mel, Gary Linden, Sebastian Steudtner. O primeiro cara que me abraçou foi o Ross Clarke Jones, um grande ídolo. Eu vendo meus ídolos me abraçando num momento desses não tem preço”, ressaltou o surfista, que foi elogiado também por McNamara, desbravador da onda de Nazaré, citando o novo recordista como exemplo de gratidão e humildade.

E nesse modelo de gratidão e humildade, Rodrigo Koxa não esqueceu todos que colaboraram de alguma forma para que ele alcançasse seu feito, especialmente seus pais, Hélio e Sandra Regina, as primeiras pessoas para quem fez questão de ligar, e sua esposa Aline Cacozzi, que teve um papel determinante em sua recuperação do trauma, após a queda que teve em 2014, quando quase morreu na mesma onda de Nazaré.

Sem tentar não esquecer ninguém, ele citou quem o ajudou. “Foi uma sinergia muito grande. Quem me deu força nas redes sociais, me fizeram acreditar que o sonho poderia ser realizado sim. Especialmente minha mulher, que fez um trabalho na minha cabeça quando tive o transtorno de stress pós-traumático. No pior momento da minha vida, ela esteve do meu lado e agora a gente comemorou juntos, com a maior alegria do Mundo”, reconheceu.

“Agradeço os meus pais, que investiram em mim desde criança, entenderam que eu tinha um sonho e fizeram de tudo. Abriram mão de viajarem, para eu poder estar no Havaí, plantando essa semente. A primeira ligação foi para eles e estavam acompanhando, chorando. Foi emocionante. É maravilhoso quando os pais acreditam nos filhos. Esse prêmio tem tudo a ver com eles”, dedicou.

Koxa também enalteceu as importantes parcerias com seus patrocinadores e apoiadores – Blams, Travel Ace Assistance, Akiwas, Silver Surf, SPO, Delírio Natural, Tomihama Sushi e Flex Academia Guarujá. “Sem esquecer a KoxaBOMB. É uma honra estar com a minha marca no peito. Foi vendendo as camisas e dando aulas de tow-in que fui para Nazaerá e bati o recorde. Agora também tenho a Blams que acreditou e estou tendo uma estrutura melhor”, elogiou.

“E não posso deixar de agradecer muito o Sérgio Cosme, meu parceiro de Portugal que me puxou na onda, que estava ao meu lado. Também a galera de Portugal, sempre na torcida. É muita gente. E tem o Fábio Maradei, que desde o começo me ajudou com a mídia, gerando credibilidade. Fez uma enxurrada de notícias e criando essa sinergia com a galera”, acrescentou. “Tem meu treinador o Brandão, o Tico e o Teco da Silver Surf, o Alexandre Akiwas, o Dudu, da Tent Beach, que foi meu aluno de tow-in e me ajudou nas viagens. Todo mundo fez parte de alguma maneira. Estão todos na cena”, reforçou.

Recorde é incentivo para motivar as pessoas e buscar novos desafios

O novo recorde mundial das ondas gigantes começou a ser desenhado na véspera do dia 8 de novembro. Rodrigo Koxa conta que no dia 7, quando tentava dormir, recebia uma mensagem que na hora não entendeu, mas veio ser decisiva quando estava dropando a gigantesca montanha de água. E ao contrário do que muitos podem pensar, ao surfar onda, ele sabia exatamente o que fazer.

“Percebi que a onda seria gigante, porque peguei uma velocidade incrível. Quando eu vi, falei para mim mesmo, não vou nem olhar para trás, vou me concentrar e surfar. É isso que eu quero! Meu parceiro, o piloto Sergio Cosme, falou: Queres ir Koxa? Respondi: vamos embora. Na hora senti que foi especial, mas quando saí do mar, começaram a aparecer as imagens e fiquei alucinado, porque vi que realmente era gigante”, lembrou.

Mas para garantir o feito, ele precisou de calma, técnica, habilidade, coragem e, uma ajuda divina. “Quando eu vi a onda, sabia o que fazer, porque tive um sonho no dia anterior. Estava na cama, tentando dormir e aquela mensagem vindo: Desce reto! E eu não sabia processar o que era aquilo”, comentou.

“No dia da onda, quando eu soltei a corda, comecei a surfar usando o protocolo que temos, de usar a borda, descer virando 45 graus, dropando de lado, mas a onda era tão triângulo, que se eu continuasse usando a borda, eu fugiria da energia dela e iria para o rabo. Eu queria performance e sabia que deveria descer reto, quando lembrei do dia anterior e determinei: é isso! Foi uma mensagem de Deus, dos anjos. Falaram a noite inteira. Você vai ter uma chance e depois que foi entender”, revelou.

Determinado como estava na onda, Rodrigo Koxa já sabe o que quer para o futuro, depois desse grande feito. “Um big rider quer pegar onda grande, a maior. Esse é um sonho de criança, de adolescente, de homem. Cresci energizando isso. Tenho respeito enorme pelo Oceano e essa conquista me fez entender que tudo que eu fiz, valeu a pena e teve um propósito. Quero aproveitar essa oportunidade para tentar motivar as pessoas a acreditarem nos seus sonhos”, anunciou.

“Eu fui para Nazaré sem patrocínio e surfei a maior onda do Mundo. Sem favoritismo, sem estrutura gigante como outros têm. A gente foi lá e fez grande, porque tinha coração, muita alma, muito amor. Agora, quero dar palestras, porque adoro contar minha história, servir de exemplo. Muita gente precisa de motivação, como eu precisei. Está saindo meu livro e quero buscar mais patrocínios para montar uma estrutura em Nazaré. Lá é a Formula 1 do surf e sem isso fica difícil”, relatou.

Para o futuro também está planejando surfar novas e desafiadoras ondas. Uma delas é a Mullagmore, na Irlanda. “É um frio absurdo, mas parece Teahupoo. Quero conhecer novas ondas de tubo. Adoro entubar, estar num salão azul, verde. Um desafio que não fiz e quero muito é Cloudbreak, em Fiji. É uma viagem mais cara, quero sonho com isso. Tremo de ver a galera surfando lá”, admitiu. “Um outro projeto que estou na cabeça é investir na remada”.

DIA 4 - Rodrigo Koxa chega ao Brasil com o novo recorde mundial e seu mais importante troféu na próxima sexta-feira, dia 4, já esperando uma grande festa com a comunidade do surf de Guarujá.

Lucas Chumbo Outro surfista do Brasil premiado no WSL Big Wave Awards na noite do sábado na Califórnia foi o jovem big rider de Saquarema, Lucas Chianca, conhecido por “Chumbinho” ou “Chumbo”. Discípulo da lenda em ondas grandes, o pernambucano Carlos Burle, Lucas é quase um iniciante nesta modalidade. O atleta de apenas 22 anos de idade, venceu a etapa de Nazaré em Portugal esse ano e ganhou o prêmio “Men´s Best Overall Performance”, de melhor performance numa etapa do WSL Big Wave Tour.

“Depois de um ano esperando esse dia, ele finalmente chegou”, disse Lucas Chianca. “No ano passado, eu bati na trave, fiquei em segundo lugar, mas neste ano foi diferente. Eu trabalhei mais, treinei mais, me dediquei mais e deu tudo certo. Estamos aqui comemorando um título que veio para o nosso Brasil e agradeço a todos que fazem parte dele, como o Carlos Burle, meu mentor, e toda a minha equipe”.

Carlos Burle também esteve na festa acompanhando de perto as conquistas de Lucas Chianca e Rodrigo Koxa. Ele falou sobre a emoção em ver dois brasileiros sendo premiados no WSL Big Wave Awards: “Agora posso descansar tranquilo, estou bem representado e o Brasil muito bem encaminhado nas ondas grandes. Só faltou a Maya (Gabeira) ganhar entre as meninas para ficar completo. O Lucas (Chianca), realmente, é o melhor surfista da atualidade e o (Rodrigo) Koxa surfou uma onda de 80 pés. Isso não é para qualquer um. Se nas competições normais do Circuito Mundial, somos a tempestade brasileira (Brazilian Storm), nas ondas grandes somos o terremoto brasileiro”.

A carioca Maya Gabeira ficou em terceiro lugar na disputa pelo mesmo prêmio conquistado por Lucas Chianca, de melhor performance feminina nas etapas do WSL Big Wave World Tour. A vencedora foi a havaiana a havaiana Paige Alms e a francesa Justine Dupont ficou em segundo lugar.

A World Surf League (WSL) tem como objetivo celebrar o melhor surfe do mundo nas melhores ondas do mundo, através das melhores plataformas de audiência. A Liga Mundial de Surf, com sede em Santa Mônica, na Califórnia, atua em todo o globo terrestre, com escritórios regionais na Austrália, África, América do Norte, América do Sul, Havaí, Europa e Japão.

A WSL vem realizando os melhores campeonatos do mundo desde 1976, realizando mais de 180 eventos globais que definem os campeões mundiais masculino e feminino no Championship Tour, além do Big Wave Tour, Qualifying Series e das categorias Junior e Longboard, bem como o WSL Big Wave Awards. A Liga tem especial atenção para a rica herança do esporte, promovendo a progressão, inovação e desempenho nos mais altos níveis, para coroar os campeões de todas as divisões do Circuito Mundial.

Os principais campeonatos de surf do mundo são transmitidos ao vivo pelo www.worldsurfleague.com e pelo aplicativo grátis WSL app. A WSL tem uma enorme legião de fãs apaixonados pelo surf em todo o mundo, que acompanham ao vivo as apresentações de grandes estrelas, como Tyler Wright, John John Florence, Paige Alms, Kai Lenny, Taylor Jensesn, Honolua Blomfield, Mick Fanning, Stephanie Gilmore, Kelly Slater, Carissa Moore, Gabriel Medina, Courtney Conlogue, entre outros, competindo no campo de jogo mais imprevisível e dinâmico entre todos os esportes no mundo. (Colaborou João Carvalho)

Veja abaixo a relação completa dos premiados no Big Wave Awards:

QUIKSILVER XXL BIGGEST WAVE AWARD WINNER

Rodrigo Koxa (BRA) em Nazaré, Portugal, em 8 de novembro de 2017

(Foto de Pedro Cruz)

RIDER OF THE YEAR AWARD WINNER

Ian Walsh (HAW) em Jaws, Maui, Havai, em 28 de outubro de 2017

(VÍdeo de Dan Norkunas)

TUBE OF THE YEAR AWARD WINNER

Ian Walsh (HAW) em Jaws, Maui, Havai, em 28 de outubro de 2017

(Foto de Richard Hallman)

WIPEOUT OF THE YEAR AWARD WINNER

Andrew Cotton (ING) em Nazaré, Portugal, em 8 de novembro de 2017

(VÍdeo de Pedro Miranda)

BIGGEST PADDLE AWARD WINNER

Aaron Gold (HAV) em Jaws, Maui, Hawaii, em 14 de janeiro de 2018

(Foto de Brent Broza)

MEN’S BEST OVERALL PERFORMANCE AWARD NOMINEES

1 - Lucas Chianca (Rio de Janeiro, Brasil)

2 - Kai Lenny (Haiku, Havaí, EUA)

3 - Grant Baker (Durban, África do Sul) - 2018/2019 BWT Qualifier

4 - Billy Kemper (Haiku, Hawaii, EUA)

5 - Ian Walsh (Haiku, Hawaii, EUA)

6 - Nathan Florence (Haleiwa, Hawaii, EUA) - 2018/2019 BWT Qualifier

7 - Jojo Roper (San Diego, California, EUA) - 2018/2019 BWT Qualifier

8 - Jamie Mitchell (Burleigh Heads, Queensland, Austrália)

9 - Russell Bierke (Ulladulla, New South Wales, Austrália) - 2018/2019 BWT Qualifier

10 - Ryan Hipwood (Gold Coast, Queensland, Austrália) - 2018/2019 BWT First Alternate

HYDRO FLASK WOMEN’S BEST PERFORMANCE AWARD WINNERS

1 - Paige Alms (Haiku, Hawaii, EUA)

2 - Justine Dupont (Seignosse, França)

3 - Maya Gabeira (Rio de Janeiro, Brasil)

4 - Keala Kennelly (Haleiwa, Hawaii, EUA)

5 - Bianca Valenti (Mill Valley, Califórnia, EUA)

 

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