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Oric Surfboards grava documentário em Cuba

Guilherme Paz, empresário da marca de pranchas Oric, fala com exclusividade sobre o Projeto Jaimanitas de ação social no país comunista.

por Redação Abiep, 23/04/2018

A história de Cuba mistura muita beleza e pobreza.

Ao mesmo tempo que a ilha possui belas praias, com ondas incríveis, a prática do esporte ainda é controversa por lá. Em um passado recente, o governo temia que seus moradores fugissem pelo mar, já que a Flórida fica a apenas 166 quilômetros de distância. Para se ter uma ideia: atualmente são 11 milhões de moradores cubanos. Destes, 2 milhões migraram para outros países nos últimos 50 anos.

Desde o embargo econômico que o país sofreu dos Estados Unidos, para onde 80% dos fugitivos iam, os esportistas precisam produzir suas próprias pranchas, que, muitas vezes, são simples pedaços de madeira. Fora isso, além de não dar incentivo algum para os surfistas, o regime socialista vê o surf como algo marginal, o que fez com que grande parte da população absorvesse este preconceito.

É exatamente esta realidade que Guilherme Paz, empresário da Oric Surfboards, quer mudar.

A Oric é uma marca de pranchas de surf, fundada em 2016 na cidade de Porto Alegre (RS), por Guilherme Paz e pelo shaper Ciro Buarque.

"No verão de 2016, totalmente longe do mundo do surf, meu filho pediu uma prancha para aprender a surfar. Nesse momento tive uma lembrança forte e arrepiante da infância e adolescência, pois desde sempre fui apaixonado pelo esporte. A partir daí, lembrei de um amigo de infância que morou na Austrália, e por ironia do destino, acabei não indo com ele viajar e morar no exterior. Ao lembrar do Ciro Buarque, fiquei sabendo que tinha voltado do Brasil e que estava começando a produzir pranchas. Portanto, além de revê-lo após alguns anos, fiz o pedido da prancha de meu filho ao Ciro (Oric ao contrário. Ele que dá nome a empresa). Ao receber a prancha desisti da carreira de advogado que tinha programado para meu futuro e resolvi trabalhar com algo que vem do coração, o esporte e mais especificamente, o surf", relembra Paz.

Rapidamente suas pranchas se tornaram destaque entre os surfistas. Com uma pegada democrática, o slogan deles sempre foi e sempre será "O surf é para todos", com o objetivo de incentivar o início da prática do surf, visto que hoje é uma modalidade Olímpica.

A Oric fabrica 100% de suas pranchas, ou seja, não existe terceirização.

"Este é um de nossos principais diferenciais. Investimos muito em qualidade e no potencial brasileiro do surf. Todos aqui dentro têm paixão pelo esporte. Aliamos lifestyle, atitude, juventude, energia e coragem. Todos da equipe praticam esportes radicais das mais diversas modalidades e se identificam com a filosofia da marca", avalia Guilherme Paz.

Em dois anos, a marca cresceu de um fundo de garagem que produzia 15 pranchas por mês, ao Castelo da Oric, um casarão histórico da cidade, produzindo agora, 100 pranchas por mês.

Além de vender pranchas, patrocinam surfistas da velha guarda como Paulo Zulu e atletas da nova geração, como Gustavo Borges, a marca foi a primeira a incentivar o esporte na ilha de Fernando de Noronha, apoia eventos como o Black Belt Challenge e o Circuito da Associação de Surf de Porto Alegre, agora, querem difundir o esporte em Cuba.

Projeto Jaimanitas Em agosto de 2017, em uma viagem para Cuba, eles conheceram o surfista Gaston Hernandez Pomares. Vendo o talento do cubano e as condições precárias em que ele surfava, Guilherme viu a chance de mudar mais que uma vida e mostrar que é possível um novo caminho por lá. Foi aí que ele se tornou mais um atleta Oric e entrou para um grupo de amantes do esporte formado por nomes como Paulo Zulu, Pâmella Mel e Gustavo Borges.

"A cada dia Gaston se destaca em Havana com sua prancha Oric. Levamos equipamento completo para ele na última vez que estivemos lá. E ele está fazendo acontecer. Inclusive, fizemos uma escolinha de surf em Cuba e ele vestiu a camiseta. Dá aula para quem quer aprender a surfar e a cada dia descobre jovens que podem se tornar os próximos profissionais. É o esporte como agente de mudança social. Foi daí que nasceu o Projeto Jaimanitas", avalia Paz.

A praia que leva o nome do projeto e onde Gaston aprendeu a amar o surf, tem o acesso proibido. Ele entra lá com a ajuda de um vizinho, que tem sua casa em frente ao mar, já que o governo não permite que ninguém pratique esportes no local.

O Projeto Jaimanitas quer transformar o surf numa paixão.

Despertar nos cubanos tudo de bom que o mar, as ondas e a praia podem proporcionar aos atletas. A missão inicial é mostrar que surf não é um esporte marginal, tanto é que virou esporte Olímpico. Aprovado pelo COI (Comitê Olímpico Internacional), os jogos de Tóquio serão os primeiros a contar com a modalidade.

Outro ponto forte do documentário será a história de Javier Morales, de 37 anos, com quem Guilherme Paz e toda Oric trabalham diariamente e descobriram tudo o que se passa em Cuba. Responsável pelo acabamento das pranchas na empresa, ele mora em Porto Alegre há quase uma década e não vê sua família desde então. Os papos entre Morales e a equipe sempre esbarram em como a situação por lá é deprimente e como eles possuem tudo para se tornar uma das referências no surf. Uma das propostas principais do documentário é promover o reencontro entre Javier e sua mãe, que quer conhecer seu neto e nora.

No documentário, quem também estará presente é o surfista carioca e praticante de kiteboarding Léo Chinês, que vai surfar junto com os cubanos. A Oric vai explorar Havana e seus arredores em busca de ondas. A previsão para o lançamento do documentário ainda não foi definida, mas a equipe da Oric volta a todo vapor e com a certeza de que estão propagando bem a prática do surf. Quem sabe daqui a alguns anos o que era marginal se transforme em uma medalha olímpica, afinal o surf é, literalmente, para todos!

Relatos dos 15 dias em Cuba Em Havana, já começaram as dificuldades com as autoridades no aeroporto, que logo suspeitaram da equipe Oric e revistaram com cachorros as parafinas e equipamentos levados, afinal, ainda existe o preconceito com o surf nas terras caribenhas.

Em Jaimanitas, quando chegaram à casa de Gaston, presenciaram o cubano fazendo uma prancha, a partir de uma espuma de geladeira para as crianças que ensina pudessem surfar.

"Eu fiquei boquiaberto com a situação, nunca havia presenciado alguém shapear com aquelas condições, foi impressionante ver a vontade de surfar deles, a partir de uma espuma de geladeira, ele criou uma prancha, foi incrível e obviamente, registramos o momento com as câmeras" diz Guilherme.

Todas crianças que aprendem surf com Gaston, se reúnem em sua casa e só podem surfar, caso estejam indo bem na escola. Gaston sabe a dificuldade de sua cultura e não quer apenas ensinar o surf, mas também como serem pessoas melhores e responsáveis, o esporte também se trata de disciplina.

"O povo cubano, não tem dificuldades apenas no surf, mas na vida. Esses 15 dias que passamos por lá, foram difíceis principalmente na parte da alimentação, é muito difícil encontrar comida boa qualidade, geralmente só encontrávamos pão e embutidos, tivemos a oportunidade de comer ovo uma única vez durante toda a viagem e por sorte ainda. Em Cuba, todos os produtos são extremamente controlados e caros, sem dúvidas, me fez sentir muita falta do Brasil", desabafa Guilherme.

A equipe também proporcionou às crianças um campeonato lúdico, para que pudessem distribuir as pranchas entre elas e também desfrutar das habilidades dos pequenos surfistas, o que gerou muita felicidade aos pequenos que surfavam em condições precárias.

Apesar de alguns dias terem problemas com a autoridade em algumas praias, Leo Chinês e Gaston, praticaram muito surf e kitesurf em Jaimanitas, Havana e a mais perigosa, Varadero, era muito difícil por lá, possuíam muitos corais. Toda a equipe ficou impressionado com as praias e mais ainda, com a falta do incentivo do surf no local.

"Cuba é como Fernando de Noronha, mas sem business", diz Paz.

Outro ponto forte dessa viagem, foi o encontro de Javier com sua família que já não os via havia dez anos, houve muito choro e risadas, um momento extremamente emocionante.

Apesar de dificuldades, a viagem foi um sucesso para equipe Oric, conseguiram ótimas imagens e o mais importante, difundir o esporte por Cuba, ganhando a gratificação de muitas crianças e moradores e até um encontro com Hector Vilar, o apresentador de esportes mais conhecido da TV pelas terras caribenhas. Os tempos estão mudando e a visão de Cuba sobre o surf aos poucos será mudada.

"Cuba é uma terra bela e nostálgica, me lembrei muito de minha infância, no início dos anos 90, pessoas fumando dentro de restaurantes, crianças de colo com seus pais no carro sem cinto de segurança, é até estranho lembrar disso (risos)", diz Guilherme sobre Cuba.

A seguir, Guilherme Paz fala um pouco mais sobre essa viagem incrível.

Quais suas expectativas para Cuba? Acha que com esse incentivo e documentário, muitos outros contribuirão para a difusão do esporte nas terras caribenhas?

Acho que não, com o documentário e com o incentivo não serão muitas pessoas que irão ajudar o esporte a ser fomentado no arquipélago de Cuba. O meu objetivo é que os cubanos mesmos fomentem e aceitem o esporte, o surf, o kite e o sup, que eles mesmos se desenvolvam, como Gaston Ernandes Pomares tem feito e através dele muitas pessoas estão conhecendo o esporte. Os cubanos tem potencial e acredito que profissionalizem o esporte antes de muitos lugares no mundo. Minha relação com a expectativa de Cuba é que o esporte seja muito praticado e profissionalizado, que as pessoas respeitem mais o esporte. A expectativa com o documentário é que as pessoas conheçam e vejam a dificuldade com o regime militar que existe em Cuba e que vejam como o surf é um esporte forte, que mesmo sem material as pessoas querem praticar.

Gaston já teve alguma complicação por surfar em uma praia onde a prática do esporte é proibida?

Na praia de Jaimanitas onde ele tem acesso por seu amigo, mas ele foi pego muitas vezes pela polícia, onde apreenderam sua prancha e o repreenderam por surfar.

Como foi a recepção das crianças? Você acha que mudando a visão das crianças sobre o esporte criará um futuro diferente do esporte em Cuba?

Sim, com certeza as crianças ficaram "amarradonas" na função da Oric, com as aulas, com o incentivo ao surf no país, nós temos depoimento das crianças também, irá aparecer no documentário e a criança que mais me chamou a atenção era a Gretel, a única menina da escolinha, encantadora, extremamente educada e feliz, ela disse que o surf é sua vida e a Oric foi a melhor coisa que já lhe aconteceu, inclusive, escreveu uma carta agradecendo nossa equipe. Acredito que essas crianças terão um futuro muito melhor neste esporte.

Além da espuma de geladeira que vocês presenciaram Gaston shapear, ele mencionou outros objetos que já usou para criar pranchas?

Para a criação de pranchas, ele usava madeira, isopor que consegue através de frigoríficos e com pedaços de outras pranchas, ele vai unindo um pedaço com outro para criar "novas" pranchas.

Quanto ao encontro com Hector Vilar, acha que tem chances dele começar a transmitir o surf na televisão Cubana?

O Hector Vilar é um periodista de Cuba, um jornalista muito conhecido, ele me pediu para fazermos um vídeo mostrando que qualquer um pode surfar, independente de classe social ou profissão, então esse vídeo vai provar que não é um esporte marginal ou só de recreação, agora, quando eu retornar com o vídeo feito, conversaremos novamente.

Além de Gaston, conheceram outros surfistas de Cuba?

Conhecemos outros surfistas, um deles é o Adonis, um surfista muito bom e conhecido por lá.

Quais os próximos projetos vocês tem em mente?

Os outros projetos que temos, é a viagem para Indonésia, baseada na história do Zulu que já foi 20 vezes para lá e agora iremos com uma equipe e 3 atletas de noronha que nunca visitaram outro país.